O Teatro das Ilusões de Vidro

A noite desabava sobre a metrópole em uma tempestade inclemente, mas dentro do majestoso Salão de Cristal do palácio de eventos, o clima era de um calor sufocante e artificial. O som da chuva açoitava as enormes vidraças góticas, tentando em vão abafar o tilintar das taças de cristal francês e o murmúrio constante da alta sociedade. Era o evento beneficente mais aguardado do ano, mas o verdadeiro espetáculo não estava no palco, e sim no centro do salão principal.
Bianca fez sua entrada como uma tempestade particular. O vestido escarlate que moldava seu corpo nĂŁo era apenas uma peça de alta-costura; era uma armadura tecida em seda e desafio. O tecido fluĂa como fogo lĂquido a cada passo, contrastando violentamente com a palidez de sua pele e o ambiente adornado em tons pastĂ©is e ouro. Há menos de um mĂŞs, seu noivado de cinco anos com o herdeiro do impĂ©rio imobiliário dos Albuquerque havia terminado em um escândalo pĂşblico, estampado nas capas de todas as revistas de fofoca. Aparecer ali, deslumbrante e inabalável, era uma declaração de guerra.
Do outro lado do salão, agarrada possessivamente ao braço do pivô de toda a tragédia, estava Helena. Seus dedos apertavam a manga do smoking de Rodrigo com uma força que denunciava sua profunda insegurança. Helena havia conquistado o prêmio, mas a coroa pesava. Ao ver Bianca dominar o ambiente sem dizer uma única palavra, uma onda de ciúme cáustico subiu por sua garganta. Ela precisava provar, para si mesma e para todos os abutres da alta roda que os observavam de soslaio, que era a verdadeira vencedora daquela história.
Soltando-se de um Rodrigo visivelmente tenso e pálido, Helena deslizou pelo piso de mármore em direção Ă rival. O ar pareceu ficar rarefeito Ă medida que a distância entre as duas diminuĂa. Os convidados ao redor, percebendo a aproximação, foram silenciando gradativamente. AtĂ© mesmo os fotĂłgrafos de coluna social, farejando o drama iminente, começaram a se posicionar, as lentes focadas como armas carregadas.
Quando Helena finalmente parou a centĂmetros de Bianca, um silĂŞncio elĂ©trico tomou conta do epicentro do salĂŁo. Ela mediu a mulher de vermelho dos pĂ©s Ă cabeça, os lábios desenhando um sorriso desdenhoso que nĂŁo alcançava os olhos.
— Vejo que passou horas no espelho… Uma produção um tanto exagerada para alguĂ©m que acaba de ser descartada, nĂŁo acha? — a voz de Helena soou doce, mas carregava o veneno de uma vĂbora pronta para o bote.
Bianca nĂŁo recuou um milĂmetro. Sua respiração manteve-se ritmada, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. Ela ergueu o queixo, o olhar cruzando com o de Helena como lâminas se chocando no ar.
— E eu noto que você se orgulha de recolher o que eu já não queria mais, minha cara — retrucou Bianca, a voz aveludada e perigosamente calma. — É fascinante como algumas pessoas conseguem se vestir de orgulho usando apenas as minhas sobras.
Um murmĂşrio abafado percorreu o cĂrculo de curiosos. Helena sentiu o rosto esquentar, as unhas cravando-se nas prĂłprias palmas atĂ© quase ferir a pele. A necessidade de humilhar Bianca era como uma fome insaciável. Ela precisava do golpe final, da cartada que a colocasse em seu devido lugar de triunfo.
— VocĂŞ pode encenar essa superioridade o quanto quiser — sibilou Helena, inclinando-se ligeiramente para frente, os olhos brilhando com uma malĂcia desesperada. — Mas, no fim das contas, a preferida fui eu. Ele largou tudo porque me escolheu.
O tempo pareceu congelar. Os flashes das câmeras fotográficas continuavam a explodir no ambiente, iluminando o saguão de forma intermitente, contudo, a máscara de simpatia coletiva havia desmoronado. Não havia mais um único sorriso nos rostos ao redor. A crueldade exposta daquela afirmação sugou todo o oxigênio do lugar.
A mulher no deslumbrante vestido escarlate, que momentos antes irradiava uma aura de realeza intocável, pareceu encolher sutilmente sob a gravidade daquelas palavras venenosas. A centelha de altivez em seu olhar extinguiu-se por uma fração de segundo, engolida por uma sombra de luto que ela lutava para esconder. Foi um lapso minúsculo, um breve descompasso em sua respiração, mas cristalino o bastante para que os observadores mais atentos notassem: a rival havia cravado a adaga cirurgicamente em sua ferida mais profunda. A dor do abandono, por mais que o homem não valesse a pena, ainda era uma cicatriz exposta.
Helena sorriu, inebriada pela própria crueldade, acreditando ter vencido a guerra. Mas a vitória durou apenas a batida de um coração.
Bianca piscou lentamente. Quando abriu os olhos novamente, o brilho havia retornado, mas nĂŁo era mais de desafio; era de uma compreensĂŁo fria e letal. Uma pena genuĂna desenhou-se nos cantos de seus lábios. Ela olhou por cima do ombro de Helena, encontrando o olhar covarde de Rodrigo, que assistia a tudo sem coragem de intervir, antes de voltar a focar na mulher Ă sua frente.
— Ah, minha pobre ingĂŞnua… — a voz de Bianca ecoou, lĂmpida e cortante como vidro estilhaçado, garantindo que cada pessoa no recinto a ouvisse. — Um homem cuja natureza Ă© a traição nĂŁo tem a capacidade de escolher ninguĂ©m. Ele nĂŁo faz escolhas por amor ou por preferĂŞncia. Ele apenas recicla os prĂłprios fracassos e repete o mesmo ciclo miserável.
O silĂŞncio que se seguiu foi ensurdecedor. A frase nĂŁo apenas rebateu o ataque; ela desconstruiu toda a fundação do suposto conto de fadas de Helena. A ilusĂŁo de ser especial, de ser “a escolhida”, desmoronou ali mesmo, sob as luzes impiedosas dos lustres de cristal.
A expressão de Helena desabou. O choque tomou conta de suas feições enquanto as palavras de Bianca penetravam em sua mente, plantando a semente maldita da dúvida que a assombraria por todas as noites que passasse ao lado daquele homem. Ela olhou para trás, buscando apoio em Rodrigo, mas ele havia desviado o olhar, passando a mão nervosamente pela nuca. O silêncio dele era a confirmação mais dolorosa que Helena poderia receber.
Os fotógrafos, instintivamente, baixaram suas câmeras. O drama havia transcendido a fofoca; tornara-se uma tragédia grega em miniatura.
Com a postura impecável e a alma finalmente lavada, Bianca virou-se. O tecido escarlate rodopiou no ar, uma pincelada de cor vibrante em um mar de figuras petrificadas. Ela nĂŁo esperou por aplausos nem por reações. Caminhou em direção Ă saĂda, os saltos ecoando no mármore com a firmeza de quem caminha para a liberdade.
Lá fora, a tempestade continuava. Quando o manobrista trouxe seu carro e abriu a porta sob o enorme guarda-chuva negro, Bianca sorriu para a noite chuvosa. Atrás dela, no luxuoso salão de cristal, duas pessoas ficavam para trás, enclausuradas na própria mentira, cercadas por testemunhas de uma vitória que tinha gosto de cinzas. A noite pertencia à chuva, e a liberdade, à mulher de vermelho.