A Herdeira das Sombras

O temporal fustigava o asfalto do Jardim Europa na noite em que Dante Montenegro mandou encostar o carro diante da residência, bem mais cedo do que qualquer um esperava.
Sua agenda previa reuniões infindáveis na região da Faria Lima até a madrugada. Para a sociedade paulistana, Dante era apenas o influente acionista majoritário do Grupo Montenegro, gigante dos setores de infraestrutura, logÃstica portuária e escolta armada. Contudo, nos bastidores do poder clandestino, ele atendia por outro tÃtulo: o lÃder supremo do crime organizado da cidade.
Dois guarda-costas abriram caminho. O chefe da famÃlia adentrou o saguão desvencilhando-se do terno encharcado quando um baque seco ressoou do interior do imóvel, vindo dos pavimentos inferiores.
TOC!
Ele estancou no mesmo instante. Outro golpe ecoou, violento.
TOC!
Dante encarou Bruno Tavares, o responsável pela guarnição da propriedade. — Que barulho é esse? — Desconheço a origem, patrão — respondeu o segurança, franzindo o cenho em alerta.
Uma terceira pancada reverberou pelas paredes. Dante identificou a procedência sem hesitar: o subsolo, onde ficava a adega particular. A mão do chefe deslizou instintivamente para o coldre sob a camisa. — Venha comigo.
Avançaram com passos rápidos pela ala de serviço, contornaram a cozinha deserta e desceram os degraus de granito que mergulhavam na escuridão do subterrâneo. Conforme avançavam pelo corredor inferior, os ruÃdos ganhavam contornos nÃtidos: respirações arfantes, solas raspando no piso e atrito maciço de madeira.
Dante empurrou o pesado portal de ferro e madeira da adega com tamanha fúria que o trinco estalou contra a alvenaria. O choque o paralisou no batente.
No vão central do recinto, cercado por prateleiras de safras raras, fora estendido um espesso tatame emborrachado escuro. Sobre aquela superfÃcie encontrava-se LÃvia, sua herdeira de doze anos. Descalça, usando calça de treino cinza, camiseta lisa e o cabelo preso num rabo de cavalo firme. Seus olhos castanhos miravam o vazio infinito, reflexo da cegueira total com a qual viera ao mundo. Nas mãos pequenas, contudo, repousava um bastão de combate em madeira maciça.
O olhar de Dante recaiu de imediato sobre um vergão roxo desenhado no antebraço da garota. O pulso do mafioso disparou de ódio.
Logo à frente da menina posicionava-se Isabela Oliveira. A mulher contratada há pouco tempo para o serviço doméstico, a funcionária discreta que recolhia louças, espanava móveis e passava quase invisÃvel pela rotina da mansão. Agora, porém, Isabela não ostentava traço algum de submissão. Estava com a base de pernas aberta, tronco centrado, coluna firme e empunhava outro bastão com destreza inquestionável.
— LÃvia — comandou a mulher, firmeza absoluta na entonação. — Concentre-se no meu deslocamento.
Antes que Dante pudesse processar a cena, LÃvia petrificou-se, focada apenas na audição. Isabela mudou a rotação dos quadris num relance e desferiu o golpe oblÃquo na direção da clavÃcula da jovem.
Dante sacou a pistola de pronto: — CHEGA!
LÃvia reagiu antes mesmo do grito ecoar no teto da abóbada. Girou o torso para o flanco direito, erguendo sua barra de madeira num ângulo defensivo perfeito.
CLAC!
O choque das madeiras estalou pelo subterrâneo. A menina deu um passo curto para trás para amortecer o recuo, recuperou o prumo dos pés e apontou a ponta de sua arma diretamente para a traqueia da oponente.
Dante esqueceu como se respirava. Incapaz de enxergar qualquer coisa, a filha acabara de neutralizar um ataque veloz com precisão cirúrgica.
Isabela baixou a postura de guarda: — Evoluiu bastante. — Você perdeu o juÃzo? — a voz grave de Dante trovejou pela adega, fazendo a filha dar um sobressalto. — Papai?
O patriarca avançou com passos pesados pelo corredor de garrafas. — Bruno, desarme-a agora.
LÃvia recolheu a peça de treino junto ao peito antes da aproximação do homem. — Não toque nisso.
Dante estacou. Jamais ouvira recusa semelhante daquela voz infantil. — LÃvia, entregue isso. — Eu posso guardar o que é meu — rebateu a garota.
Ela deu meia-volta e marchou em direção a um suporte lateral sem esbarrar em uma única garrafa ou pedir orientação. Contou mentalmente os passos, fez o desvio preciso e acomodou a vara no suporte de madeira.
Dante encarou Isabela com olhos em chamas. — Desde quando essa loucura vem acontecendo debaixo do meu teto? — Há meses — respondeu a empregada, sustentando o olhar do criminoso sem piscar. — Meses? — explodiu ele, apontando para a pele machucada da garota. — Olhe o estado do braço dela! — Eu reparei. — Ela está lesionada por sua causa! — Errado — retrucou Isabela, sem alterar o tom sereno. — Estou ensinando sua filha a não ser abatida lá fora.
O lÃder da máfia reduziu a distância até quase encostar o peito no dela. — Acha que a minha vida ou a dela são uma piada? — De forma alguma. — Então o que pensa que está inventando aqui? — Estou preparando a LÃvia. — Ela não enxerga!
As palavras caÃram como chumbo. LÃvia voltou o rosto na direção exata do pai. — Eu sei exatamente qual é a minha condição.
Dante respirou fundo, tentando controlar o tremor de raiva nos punhos. — Não dirigi a palavra a você, filha. — Mas falou de mim como se eu fosse um objeto inanimado nesta sala.
O impacto daquelas frases cortou o arrepio de autoridade do homem. Ele esfregou a têmpora. — LÃvia, suba para os seus aposentos. Já. — Não vou.
Ao fundo, Bruno desviou a cabeça, constrangido pelo confronto aberto. A mandÃbula de Dante trincou. — Eu te dei uma ordem direta. — E eu me recusei a obedecer. — LÃvia Montenegro! — O senhor quer saber há quanto tempo dura isso? — questionou a jovem, sem baixar a guarda. — Quatro meses seguidos. Quatro meses em que aprendi a não despencar no chão quando alguém tenta me derrubar. Quatro meses decodificando o som de passos e o peso do ar. Quatro meses descobrindo minha própria força, algo que o senhor sempre fez questão de trancar longe de mim. — Tudo o que fiz foi para manter você fora de perigo!
A jovem soltou uma risada rascante, desprovida de doçura. — Segura? Dentro deste mausoléu? — Você dispõe de tudo que a fortuna pode comprar. — É exatamente essa jaula que me sufoca! — desabafou a garota, com a voz embargada pela mágoa acumulada. — Carros blindados, seguranças a cada esquina, professores particulares, médicos a domicÃlio e muralhas impenetráveis. O senhor batiza isso de zelo paternal. Para mim, não passa de ser sepultada com vida em uma prisão luxuosa. — LÃvia, entenda… — Eu tenho doze anos, pai! — uma lágrima desenhou um rastro na poeira de seu rosto. — Não sou uma peça de porcelana para ser guardada num cofre esperando o dia em que o mundo venha me partir em pedaços! — Você pode acabar gravemente ferida nesse tipo de treino. — Eu posso me machucar simplesmente tropeçando nos seus corredores vazios! — rebateu a menina, apontando para Isabela. — Mas, graças a ela, agora eu tenho alguma chance se alguém tentar me arrancar deste mundo.
Dante voltou a atenção para a mulher à sua frente, o ódio transbordando no olhar. — Foi você quem colocou esses delÃrios na mente dela. — Não inventei nada, senhor Montenegro — respondeu Isabela. — Essa revolta já queimava no peito dela muito antes da minha contratação. — Você não tem a menor ideia de quem é a minha filha. — Ou talvez eu seja a única capaz de enxergar o potencial que o senhor prefere ignorar por covardia.
Dante avançou mais um palmo, a sombra da morte desenhada na fisionomia. Bruno travou os punhos atrás do chefe. Praticamente ninguém vivo no submundo ousara encarar Dante com tamanha audácia sem pagar com a vida antes do amanhecer.
— Recolha seus pertences e saia das minhas terras. — Não sairei. — Parece que você não compreendeu — sussurrou o chefe, a voz carregada de ameaça. — Você está dispensada. — Lamento desapontá-lo, senhor Montenegro, mas não estou.
O subterrâneo congelou. Os olhos escuros de Dante cerraram-se em pura fúria assassina. — Pretende testar o que acontece com quem ousa me desafiar dentro da minha própria fortaleza? — O que pretendo é evitar o massacre que acontecerá no dia em que os seus inimigos alcançarem esta menina. — Que loucura é essa? — É a verdadeira razão de eu estar moldando os reflexos dela. — Não há justificativa para isso! — Há todas as razões do mundo. — LÃvia é apenas uma criança indefesa! Meus negócios sangrentos não têm ligação com ela! — Tem certeza dessa afirmação? — Meça suas palavras com cuidado antes que eu perca a paciência.
Isabela fitou a garota por um instante antes de cravar os olhos nos dele. — Sua filha não é apenas uma criança indefesa, Dante. Ela é o sangue do seu sangue. Ela é a sua sucessora natural. — Meus rivais não têm assuntos pendentes com a minha filha. — Os homens que querem o seu império pensam de modo bastante diferente — retrucou Isabela, com voz gélida.
O estômago do mafioso despencou em gelo. — Quem enviou você? — Ninguém vivo. — Quem autorizou a sua entrada nesta residência?
Isabela permaneceu muda. Num impulso descontrolado, Dante agarrou o pulso da mulher. — Fale agora!
Ela não recuou, nem demonstrou sinal de temor. Erguendo a mão livre até a gola da blusa, puxou de sob o tecido uma sutil corrente prateada.
Dante afrouxou os dedos imediatamente.
Pendente na corrente reluzia um camafeu metálico trabalhado: um desenho elÃptico cruzado por três entalhes milimétricos.
O ambiente pareceu perder o chão sob os pés do patriarca. Ele reconhecia cada traço daquela gravação. Sete invernos antes, logo após sepultar Helena, Dante se isolara por noites inteiras no quarto da falecida esposa, revirando cada lembrança do passado: as cartas Ãntimas, as fragrâncias, os retratos e as joias mais caras. No compartimento secreto de um baú pessoal de Helena, repousava um rascunho idêntico à quele entalhe.
Dante levantou o rosto, o choque quebrando a couraça de homem temido. — De onde veio essa peça?
Isabela cerrou os dedos sobre a medalha, a voz soando quase como uma prece: — Foi Helena quem me entregou este sÃmbolo, antes de partir.