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O Desafio dos Montenegro

9 Min Read

As pesadas grades de ferro fundido deslizaram devagar, abrindo caminho para a propriedade Montenegro.

Isabela Oliveira apertou a alça da própria bolsa contra o peito enquanto examinava a imponência da construção adiante.

Aquilo não transmitia a sensação de um lar.

Lembrava mais uma fortaleza vigiada dia e noite.

Perto da escadaria da entrada, dois seguranças de paletó escuro montavam guarda. Um terceiro permanecia encostado a um utilitário blindado junto à garagem lateral.

Isabela soltou o ar lentamente.

A descrição da vaga fora direta:

Tutora e babá particular. Menino de oito anos. Endereço nos Jardins. Remuneração muito acima da média.

Não havia menção a homens armados no jardim.

Tampouco ao peso imponente do sobrenome Montenegro.

A porta principal foi aberta por uma senhora de traços firmes e coque prateado perfeitamente alinhado, antes mesmo de Isabela alcançar a campainha.

— Isabela Oliveira?

— Sim, sou eu.

— Teresa.

A mulher estendeu a mão com educação formal.

— Acompanhe-me.

Isabela pisou sobre o mármore reluzente do saguão, contendo a surpresa.

A altura do teto era vertiginosa, coroada por um imenso lustre de cristal, enquanto as telas a óleo espalhadas pelo espaço custavam o equivalente a anos de aluguel do seu pequeno imóvel.

Teresa guiava os passos com calma metódica.

— O anúncio mencionava uma criança, correto? — Isabela tentou puxar assunto.

— Gabriel. Tem oito anos.

Antes que Isabela acrescentasse algo, o som cortante de louça estilhaçando ecoou da sala de refeições.

Logo em seguida, o estalar de sapatos apressados cortou o corredor.

Uma moça surgiu em prantos.

Segurava uma sacola a tiracolo e uma valise de mão.

Passou por elas sem erguer o rosto ou notar a presença de Isabela.

Vindo da sala adiante, um grito infantil soou afiado:

— E NÃO SE ATREVA A PISAR AQUI DE NOVO!

A jovem apressou as passadas.

O bater pesado do portão exterior encerrou a saída.

Isabela fitou o corredor vazio por um momento.

Depois, voltou a atenção para a governanta.

— Quem era?

A serenidade no rosto de Teresa não vacilou.

— A funcionária anterior.

Isabela arqueou a sobrancelha.

— A anterior?

— A décima primeira a desistir em sessenta dias.

Dessa vez, Isabela não conteve a perplexidade:

— Onze pessoas?

Teresa confirmou com um leve aceno de cabeça.

— Algumas aguentaram sete dias.

Houve uma pausa calculada.

— A maioria, bem menos.

Isabela mirou os arcos da sala de refeições.

— E qual o motivo de tantas demissões?

Teresa preparou a resposta, mas um talher metálico deslizou pelo piso polido, parando a centímetros dos sapatos de Isabela.

Ambas baixaram os olhos.

Teresa soltou um breve suspiro.

— É melhor perguntar diretamente a ele.

Isabela avançou pelo recinto.

A imensa mesa retangular parecia exagerada para apenas um menino.

Ao centro, uma fartura de frutas, pães frescos, jarras de suco e leite dava a impressão de um café matinal para um grupo numeroso.

Sentado em uma das pontas, Gabriel Montenegro ocupava a cadeira com ar desafiador.

O garoto tinha cabelos escuros desalinhados e vestia o uniforme impecável de um colégio renomado.

Não demonstrava nenhum constrangimento pelo prato quebrado aos seus pés.

Nem parecia surpreso com a nova visitante.

Limitava-se a girar a colher na tigela de cereal.

Isabela manteve-se do lado oposto da mesa.

— Você é o Gabriel?

O menino ergueu o olhar.

Examinou a postura dela com atenção clínica.

Depois, notou a pasta profissional que ela carregava sob o braço.

— Veio tentar a sorte também?

Isabela levantou uma sobrancelha.

— Tentar o quê exatamente?

— Ser minha babá.

Ele apontou o queixo na direção do corredor.

— A última já pediu demissão.

— Deu para ouvir.

— Pode fazer o mesmo e economizar seu tempo.

Isabela puxou o encosto da cadeira sem se sentar.

— Estou aqui para uma entrevista de trabalho.

Gabriel encolheu os ombros em total desdém.

— Desnecessário.

— E por qual razão?

— Simplesmente não fui com a sua cara.

— Conversamos há menos de um minuto.

— Tempo suficiente para eu decidir.

Um esboço de ironia passou pelos lábios de Isabela.

— Quanta rapidez.

Gabriel estreitou os olhos.

Tentava decifrar se ela o tratava com deboche.

— Sabe quem é o meu pai?

— Ainda não tive o prazer.

— A cidade inteira conhece ele.

— Não sigo a multidão.

O menino emudeceu por um segundo.

Houve uma quebra sutil na sua segurança aparente.

Apenas um vislumbre.

Logo ele puxou o copo de leite para a beirada.

Isabela apoiou sua pasta sobre a madeira nobre.

— E me diga: qual é a regra desse jogo?

— Que jogo?

— A sua rotatividade de profissionais.

— Minha rotatividade?

— Onze demissões em dois meses.

Ela cruzou os braços com firmeza.

— Claramente você montou uma estratégia.

Gabriel olhou de relance para Teresa, que continuava parada à entrada.

A governanta manteve o silêncio.

O menino voltou a encarar Isabela.

Então, com um movimento deliberado da ponta dos dedos, empurrou o copo.

O líquido derramou de vez.

Espalhou-se pela mesa e começou a pingar ruidosamente no assoalho.

Gabriel jogou as costas contra o assento.

Aguardando o desespero dela.

Isabela fitou a poça branca.

Em seguida, olhou para o garoto.

— Escorregou — mentiu Gabriel, sem remorso.

Ela estendeu a mão, apanhou um guardanapo de linho e o colocou sobre a mesa.

Gabriel abriu um sorriso prepotente.

Crente de que conhecia o roteiro da história.

Isabela empurrou o tecido até parar diante dele.

— Foi você quem derrubou. Trate de secar.

O riso morreu na hora.

— O que disse?

— O leite na mesa.

— A casa tem empregados para limpar sujeira.

Isabela deu uma olhada displicente ao redor.

— Uma pena para eles.

Ela indicou o guardanapo.

— Porque hoje o trabalho é seu.

Gabriel empurrou o pano para longe.

— Você não tem autoridade nenhuma sobre mim.

O tom de Isabela permaneceu incrivelmente calmo.

— Ainda não.

Teresa baixou a cabeça para disfarçar um riso involuntário.

O menino percebeu o movimento da governanta.

— Posso mandar expulsarem você daqui agora mesmo.

— Pode?

— Claro que posso.

— Pois tente.

Ele travou.

Isabela manteve a postura inabalável.

— Estou esperando — disse ela. — Faça a ligação.

Gabriel abriu os lábios, mas não encontrou palavras.

Não estava habituado a ver ninguém ignorar as suas ameaças.

Isabela puxou a cadeira e finalmente acomodou-se diante dele.

— Enquanto você ensaia sua ordem, o leite vai manchar a sua calça.

O garoto baixou os olhos rapidamente.

O fluxo começava a gotejar perigosamente perto do seu uniforme escolar.

Ele puxou as pernas para trás com pressa.

Isabela repousou o queixo na palma da mão.

— Se prefere estragar a roupa, fique à vontade.

As bochechas de Gabriel arderam de raiva.

— Você é insuportável.

— E você derramou o copo de propósito.

— Disse que foi sem querer!

— Então consertar não vai doer nada.

— Eu não vou passar pano em nada!

Isabela ergueu os ombros com indiferença.

— Como quiser.

Ela abriu a pasta de documentos e passou a folhear suas próprias referências com total desinteresse pelo drama dele.

Gabriel não tirava os olhos dela.

Passaram-se segundos tensos.

Três.

Cinco.

Dez.

Isabela não fez pressão.

Não insistiu.

Não pediu socorro a Teresa.

Tampouco recolheu a sujeira no lugar dele.

Derrotado pelo silêncio, Gabriel agarrou o tecido.

Esfregou a superfície da mesa com violência.

— Satisfeita?

Isabela olhou de relance.

— Falta o chão.

O menino parecia à beira de um colapso.

— Tá de sacanagem comigo?

— De forma alguma.

— Nem contratada você foi!

— Realmente.

Ela fechou os papéis com um estalo suave.

— Este ainda é o meu teste prático.

Teresa virou o tronco de lado, falhando miseravelmente na tentativa de sufocar a risada.

Gabriel pegou o flagrante.

— Teresa!

— Não abri a boca, menino Gabriel.

O garoto puxou outro pedaço de linho e ajoelhou-se para recolher a mancha no piso.

Isabela observou cada movimento em silêncio.

Sem exibicionismo.

Sem ar de triunfo.

Apenas determinação e paciência.

Ao terminar, ele se jogou de volta na cadeira, furioso.

— Terminei. Agora pode ir embora.

Um tom grave ressoou do topo das escadas.

— Ela fica.

Todos os olhares convergiram para os degraus.

Um homem observava a cena lá de cima.

Dante Montenegro.

Isabela o reconheceu instantaneamente.

Não pelo que ouvira antes, mas pela presença imponente que dominava qualquer ambiente antes mesmo de sua voz ser ouvida.

Com porte ereto, camisa social escura e passos firmes, ele descia com calma aristocrática.

Dois homens de guarda surgiram na galeria superior, mantendo-se a uma distância prudente.

Gabriel voltou a encarar o próprio prato.

A rigidez do pai mudava o ar da sala de uma forma palpável.

Dante parou rente à mesa.

O olhar cortante passou pelo copo caído, pelos guardanapos encharcados e, por fim, fixou-se em Isabela.

— O cargo é seu.

Ela pestanejou.

— Perdão?

— Seu contrato começa neste instante.

Isabela alternou o olhar entre Teresa e o menino emburrado.

Por fim, sustentou a firmeza dos olhos de Dante.

— Nós nem realizamos a entrevista.

A expressão dele não vacilou um milímetro.

— O teste acabou de acontecer.

Gabriel jogou o talher com força contra a porcelana.

— Eu recuso ela!

Dante mal moveu o rosto para o filho.

— Eu sei.

— Manda essa mulher embora agora!

— Não.

Gabriel empurrou o assento, levantando-se em fúria.

— Você nunca liga para o que eu digo!

O menino disparou pelo corredor, deixando a refeição intocada.

Isabela seguiu o trajeto do garoto até ouvir o estrondo de uma porta no andar de cima.

O silêncio reinou na sala de jantar.

Dante voltou-se para a funcionária da casa.

— Teresa, conduza a senhorita Oliveira aos seus aposentos.

Isabela colocou-se de pé de imediato.

— Um instante.

Dante estancou os passos.

Ela recolheu sua bolsa e sua pasta.

— Eu ainda não confirmei se vou aceitar o posto.

Pela primeira vez, uma centelha de surpresa cruzou a feição gélida do homem.

— Os valores financeiros estão claros na proposta.

— Minha hesitação não tem relação com dinheiro.

— Com o que seria, então?

Isabela fez um gesto comedido na direção por onde Gabriel havia saído.

— Onze babás pediram demissão em dois meses.

Dante sustentou o silêncio.

— Se eu assumir essa responsabilidade — continuou ela —, não serei a décima segunda a ceder a caprichos apenas para comprar um pouco de paz.

O olhar de Dante endureceu consideravelmente.

— O que está sugerindo?

— Que pretendo entender a razão de ele expulsar todo mundo da vida dele.

A postura de Dante congelou de forma quase imperceptível.

— Sua atribuição é vigiar a rotina do meu filho.

Isabela não recuou diante da advertência.

— Compreendo perfeitamente.

— Então limite-se a isso.

Houve um segundo de tensão suspensa.

Dante concluiu em tom cortante:

— E não procure fantasmas onde eles não existem.

Isabela voltou a mirar o corredor.

Lembrou-se do prato em cacos.

Da moça desolada cruzando o portão aos prantos.

Do copo tombado propositalmente sobre a toalha.

Do instante exato em que Gabriel congelara quando ela o desafiou a mandar que a demitissem.

Fantasmas existiam sim naquela casa.

Resta saber em qual cômodo estavam escondidos.

Teresa apanhou a pequena bagagem de Isabela que repousava próxima ao hall.

— Venha comigo, querida. Vou mostrar onde vai se instalar.

Isabela caminhou atrás da governanta.

Ao pisar na soleira que levava ao corredor principal, a voz de Dante a alcançou uma última vez:

— Senhorita Oliveira.

Ela girou o corpo.

— Sim?

— Sete dias.

— O quê?

— O prazo máximo que a anterior resistiu aqui dentro.

Isabela olhou em direção à escadaria por onde o menino havia subido.

Depois, devolveu o olhar direto ao patriarca Montenegro.

— Então combinamos nossa próxima conversa para o oitavo dia.

Por um breve instante, Teresa apertou os lábios para conter um sorriso de aprovação.

Dante apenas a observou em silêncio absoluto.

Isabela seguiu seu caminho.

No piso superior, outro estrondo ecoou.

Ela ainda não compreendia a extensão de como aquela simples entrevista mudaria sua vida inteira.

E Gabriel Montenegro ainda não sabia que, pela primeira vez na infância, encontrara alguém que não viraria as costas apenas porque ele mandou.

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