O Desafio dos Montenegro

As pesadas grades de ferro fundido deslizaram devagar, abrindo caminho para a propriedade Montenegro.
Isabela Oliveira apertou a alça da própria bolsa contra o peito enquanto examinava a imponência da construção adiante.
Aquilo não transmitia a sensação de um lar.
Lembrava mais uma fortaleza vigiada dia e noite.
Perto da escadaria da entrada, dois seguranças de paletó escuro montavam guarda. Um terceiro permanecia encostado a um utilitário blindado junto à garagem lateral.
Isabela soltou o ar lentamente.
A descrição da vaga fora direta:
Tutora e babá particular. Menino de oito anos. Endereço nos Jardins. Remuneração muito acima da média.
Não havia menção a homens armados no jardim.
Tampouco ao peso imponente do sobrenome Montenegro.
A porta principal foi aberta por uma senhora de traços firmes e coque prateado perfeitamente alinhado, antes mesmo de Isabela alcançar a campainha.
— Isabela Oliveira?
— Sim, sou eu.
— Teresa.
A mulher estendeu a mão com educação formal.
— Acompanhe-me.
Isabela pisou sobre o mármore reluzente do saguão, contendo a surpresa.
A altura do teto era vertiginosa, coroada por um imenso lustre de cristal, enquanto as telas a óleo espalhadas pelo espaço custavam o equivalente a anos de aluguel do seu pequeno imóvel.
Teresa guiava os passos com calma metódica.
— O anúncio mencionava uma criança, correto? — Isabela tentou puxar assunto.
— Gabriel. Tem oito anos.
Antes que Isabela acrescentasse algo, o som cortante de louça estilhaçando ecoou da sala de refeições.
Logo em seguida, o estalar de sapatos apressados cortou o corredor.
Uma moça surgiu em prantos.
Segurava uma sacola a tiracolo e uma valise de mão.
Passou por elas sem erguer o rosto ou notar a presença de Isabela.
Vindo da sala adiante, um grito infantil soou afiado:
— E NÃO SE ATREVA A PISAR AQUI DE NOVO!
A jovem apressou as passadas.
O bater pesado do portão exterior encerrou a saÃda.
Isabela fitou o corredor vazio por um momento.
Depois, voltou a atenção para a governanta.
— Quem era?
A serenidade no rosto de Teresa não vacilou.
— A funcionária anterior.
Isabela arqueou a sobrancelha.
— A anterior?
— A décima primeira a desistir em sessenta dias.
Dessa vez, Isabela não conteve a perplexidade:
— Onze pessoas?
Teresa confirmou com um leve aceno de cabeça.
— Algumas aguentaram sete dias.
Houve uma pausa calculada.
— A maioria, bem menos.
Isabela mirou os arcos da sala de refeições.
— E qual o motivo de tantas demissões?
Teresa preparou a resposta, mas um talher metálico deslizou pelo piso polido, parando a centÃmetros dos sapatos de Isabela.
Ambas baixaram os olhos.
Teresa soltou um breve suspiro.
— É melhor perguntar diretamente a ele.
Isabela avançou pelo recinto.
A imensa mesa retangular parecia exagerada para apenas um menino.
Ao centro, uma fartura de frutas, pães frescos, jarras de suco e leite dava a impressão de um café matinal para um grupo numeroso.
Sentado em uma das pontas, Gabriel Montenegro ocupava a cadeira com ar desafiador.
O garoto tinha cabelos escuros desalinhados e vestia o uniforme impecável de um colégio renomado.
Não demonstrava nenhum constrangimento pelo prato quebrado aos seus pés.
Nem parecia surpreso com a nova visitante.
Limitava-se a girar a colher na tigela de cereal.
Isabela manteve-se do lado oposto da mesa.
— Você é o Gabriel?
O menino ergueu o olhar.
Examinou a postura dela com atenção clÃnica.
Depois, notou a pasta profissional que ela carregava sob o braço.
— Veio tentar a sorte também?
Isabela levantou uma sobrancelha.
— Tentar o quê exatamente?
— Ser minha babá.
Ele apontou o queixo na direção do corredor.
— A última já pediu demissão.
— Deu para ouvir.
— Pode fazer o mesmo e economizar seu tempo.
Isabela puxou o encosto da cadeira sem se sentar.
— Estou aqui para uma entrevista de trabalho.
Gabriel encolheu os ombros em total desdém.
— Desnecessário.
— E por qual razão?
— Simplesmente não fui com a sua cara.
— Conversamos há menos de um minuto.
— Tempo suficiente para eu decidir.
Um esboço de ironia passou pelos lábios de Isabela.
— Quanta rapidez.
Gabriel estreitou os olhos.
Tentava decifrar se ela o tratava com deboche.
— Sabe quem é o meu pai?
— Ainda não tive o prazer.
— A cidade inteira conhece ele.
— Não sigo a multidão.
O menino emudeceu por um segundo.
Houve uma quebra sutil na sua segurança aparente.
Apenas um vislumbre.
Logo ele puxou o copo de leite para a beirada.
Isabela apoiou sua pasta sobre a madeira nobre.
— E me diga: qual é a regra desse jogo?
— Que jogo?
— A sua rotatividade de profissionais.
— Minha rotatividade?
— Onze demissões em dois meses.
Ela cruzou os braços com firmeza.
— Claramente você montou uma estratégia.
Gabriel olhou de relance para Teresa, que continuava parada à entrada.
A governanta manteve o silêncio.
O menino voltou a encarar Isabela.
Então, com um movimento deliberado da ponta dos dedos, empurrou o copo.
O lÃquido derramou de vez.
Espalhou-se pela mesa e começou a pingar ruidosamente no assoalho.
Gabriel jogou as costas contra o assento.
Aguardando o desespero dela.
Isabela fitou a poça branca.
Em seguida, olhou para o garoto.
— Escorregou — mentiu Gabriel, sem remorso.
Ela estendeu a mão, apanhou um guardanapo de linho e o colocou sobre a mesa.
Gabriel abriu um sorriso prepotente.
Crente de que conhecia o roteiro da história.
Isabela empurrou o tecido até parar diante dele.
— Foi você quem derrubou. Trate de secar.
O riso morreu na hora.
— O que disse?
— O leite na mesa.
— A casa tem empregados para limpar sujeira.
Isabela deu uma olhada displicente ao redor.
— Uma pena para eles.
Ela indicou o guardanapo.
— Porque hoje o trabalho é seu.
Gabriel empurrou o pano para longe.
— Você não tem autoridade nenhuma sobre mim.
O tom de Isabela permaneceu incrivelmente calmo.
— Ainda não.
Teresa baixou a cabeça para disfarçar um riso involuntário.
O menino percebeu o movimento da governanta.
— Posso mandar expulsarem você daqui agora mesmo.
— Pode?
— Claro que posso.
— Pois tente.
Ele travou.
Isabela manteve a postura inabalável.
— Estou esperando — disse ela. — Faça a ligação.
Gabriel abriu os lábios, mas não encontrou palavras.
Não estava habituado a ver ninguém ignorar as suas ameaças.
Isabela puxou a cadeira e finalmente acomodou-se diante dele.
— Enquanto você ensaia sua ordem, o leite vai manchar a sua calça.
O garoto baixou os olhos rapidamente.
O fluxo começava a gotejar perigosamente perto do seu uniforme escolar.
Ele puxou as pernas para trás com pressa.
Isabela repousou o queixo na palma da mão.
— Se prefere estragar a roupa, fique à vontade.
As bochechas de Gabriel arderam de raiva.
— Você é insuportável.
— E você derramou o copo de propósito.
— Disse que foi sem querer!
— Então consertar não vai doer nada.
— Eu não vou passar pano em nada!
Isabela ergueu os ombros com indiferença.
— Como quiser.
Ela abriu a pasta de documentos e passou a folhear suas próprias referências com total desinteresse pelo drama dele.
Gabriel não tirava os olhos dela.
Passaram-se segundos tensos.
Três.
Cinco.
Dez.
Isabela não fez pressão.
Não insistiu.
Não pediu socorro a Teresa.
Tampouco recolheu a sujeira no lugar dele.
Derrotado pelo silêncio, Gabriel agarrou o tecido.
Esfregou a superfÃcie da mesa com violência.
— Satisfeita?
Isabela olhou de relance.
— Falta o chão.
O menino parecia à beira de um colapso.
— Tá de sacanagem comigo?
— De forma alguma.
— Nem contratada você foi!
— Realmente.
Ela fechou os papéis com um estalo suave.
— Este ainda é o meu teste prático.
Teresa virou o tronco de lado, falhando miseravelmente na tentativa de sufocar a risada.
Gabriel pegou o flagrante.
— Teresa!
— Não abri a boca, menino Gabriel.
O garoto puxou outro pedaço de linho e ajoelhou-se para recolher a mancha no piso.
Isabela observou cada movimento em silêncio.
Sem exibicionismo.
Sem ar de triunfo.
Apenas determinação e paciência.
Ao terminar, ele se jogou de volta na cadeira, furioso.
— Terminei. Agora pode ir embora.
Um tom grave ressoou do topo das escadas.
— Ela fica.
Todos os olhares convergiram para os degraus.
Um homem observava a cena lá de cima.
Dante Montenegro.
Isabela o reconheceu instantaneamente.
Não pelo que ouvira antes, mas pela presença imponente que dominava qualquer ambiente antes mesmo de sua voz ser ouvida.
Com porte ereto, camisa social escura e passos firmes, ele descia com calma aristocrática.
Dois homens de guarda surgiram na galeria superior, mantendo-se a uma distância prudente.
Gabriel voltou a encarar o próprio prato.
A rigidez do pai mudava o ar da sala de uma forma palpável.
Dante parou rente à mesa.
O olhar cortante passou pelo copo caÃdo, pelos guardanapos encharcados e, por fim, fixou-se em Isabela.
— O cargo é seu.
Ela pestanejou.
— Perdão?
— Seu contrato começa neste instante.
Isabela alternou o olhar entre Teresa e o menino emburrado.
Por fim, sustentou a firmeza dos olhos de Dante.
— Nós nem realizamos a entrevista.
A expressão dele não vacilou um milÃmetro.
— O teste acabou de acontecer.
Gabriel jogou o talher com força contra a porcelana.
— Eu recuso ela!
Dante mal moveu o rosto para o filho.
— Eu sei.
— Manda essa mulher embora agora!
— Não.
Gabriel empurrou o assento, levantando-se em fúria.
— Você nunca liga para o que eu digo!
O menino disparou pelo corredor, deixando a refeição intocada.
Isabela seguiu o trajeto do garoto até ouvir o estrondo de uma porta no andar de cima.
O silêncio reinou na sala de jantar.
Dante voltou-se para a funcionária da casa.
— Teresa, conduza a senhorita Oliveira aos seus aposentos.
Isabela colocou-se de pé de imediato.
— Um instante.
Dante estancou os passos.
Ela recolheu sua bolsa e sua pasta.
— Eu ainda não confirmei se vou aceitar o posto.
Pela primeira vez, uma centelha de surpresa cruzou a feição gélida do homem.
— Os valores financeiros estão claros na proposta.
— Minha hesitação não tem relação com dinheiro.
— Com o que seria, então?
Isabela fez um gesto comedido na direção por onde Gabriel havia saÃdo.
— Onze babás pediram demissão em dois meses.
Dante sustentou o silêncio.
— Se eu assumir essa responsabilidade — continuou ela —, não serei a décima segunda a ceder a caprichos apenas para comprar um pouco de paz.
O olhar de Dante endureceu consideravelmente.
— O que está sugerindo?
— Que pretendo entender a razão de ele expulsar todo mundo da vida dele.
A postura de Dante congelou de forma quase imperceptÃvel.
— Sua atribuição é vigiar a rotina do meu filho.
Isabela não recuou diante da advertência.
— Compreendo perfeitamente.
— Então limite-se a isso.
Houve um segundo de tensão suspensa.
Dante concluiu em tom cortante:
— E não procure fantasmas onde eles não existem.
Isabela voltou a mirar o corredor.
Lembrou-se do prato em cacos.
Da moça desolada cruzando o portão aos prantos.
Do copo tombado propositalmente sobre a toalha.
Do instante exato em que Gabriel congelara quando ela o desafiou a mandar que a demitissem.
Fantasmas existiam sim naquela casa.
Resta saber em qual cômodo estavam escondidos.
Teresa apanhou a pequena bagagem de Isabela que repousava próxima ao hall.
— Venha comigo, querida. Vou mostrar onde vai se instalar.
Isabela caminhou atrás da governanta.
Ao pisar na soleira que levava ao corredor principal, a voz de Dante a alcançou uma última vez:
— Senhorita Oliveira.
Ela girou o corpo.
— Sim?
— Sete dias.
— O quê?
— O prazo máximo que a anterior resistiu aqui dentro.
Isabela olhou em direção à escadaria por onde o menino havia subido.
Depois, devolveu o olhar direto ao patriarca Montenegro.
— Então combinamos nossa próxima conversa para o oitavo dia.
Por um breve instante, Teresa apertou os lábios para conter um sorriso de aprovação.
Dante apenas a observou em silêncio absoluto.
Isabela seguiu seu caminho.
No piso superior, outro estrondo ecoou.
Ela ainda não compreendia a extensão de como aquela simples entrevista mudaria sua vida inteira.
E Gabriel Montenegro ainda não sabia que, pela primeira vez na infância, encontrara alguém que não viraria as costas apenas porque ele mandou.