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O Elo Esquecido sob as Luzes da Feira

4 Min Read

O entardecer caía sobre o parque de diversões, tingindo o céu de tons alaranjados e violetas, mas nenhuma daquelas cores parecia alcançar a minha menina. Ela havia passado quase todo o passeio imersa em uma mudez absoluta. Não se tratava do típico abatimento de uma criança exausta após horas de correria entre barracas de doces e brinquedos barulhentos; era uma quietude densa, cortante, que aciona de imediato aquele sexto sentido que só quem cria um filho sozinho conhece bem. Uma intuição amarga me dizia que algo muito fora do normal havia acontecido.

Depois de procurá-la por alguns minutos entre os corredores cheios de gente, acabei por encontrá-la refugiada no estacionamento de terra batida, encolhida junto à porta do nosso velho sedã. Seus ombros tremiam compassadamente em um pranto tão sufocado que o ar parecia faltar em seus pequenos pulmões. Naquele instante, mil hipóteses desesperadoras cruzaram a minha mente: imaginei que algum garoto pudesse ter zombado dela, que ela tivesse sido destratada por algum funcionário impaciente ou que o susto de algum brinquedo mais veloz a tivesse desestabilizado.

Dei passos lentos para não assustá-la ainda mais. Agachei-me ao seu lado, pousei a mão sobre seu ombro trêmulo e perguntei com a maior suavidade que consegui reunir:

“O que aconteceu, minha filha? Me conta.”

Ela levantou a cabeça devagar. Os olhos castanhos, tão parecidos com os do passado, estavam vermelhos e inchados pelo choro recente. Com um fio de voz entrecortado, pronunciou palavras que me deixaram desconcertado:

“Pai… por favor, me tira daqui. A gente pode ir embora agora?”

Aquele pedido me atingiu com força e estranheza. Desde muito pequena, ela contava os dias no calendário para a chegada anual daquela feira itinerante à cidade. O brilho dos carrosséis, o som das canções antigas ecoando pelos alto-falantes, os brindes baratos de pelúcia e o aroma adocicado de algodão-doce e maçã do amor eram o seu pequeno paraíso particular. Ver minha filha implorar para fugir dali, justamente antes que as grandes lâmpadas noturnas se acendessem por completo, não fazia o menor sentido.

Ergui-a com cuidado, tentando passar-lhe alguma segurança, e a ajudei a se firmar de pé na terra fofa. Porém, assim que se equilibrou, seus dedos miúdos agarraram o meu pulso com um desespero surpreendente, quase fincando as unhas na minha pele.

“Pai,” murmurou ela, as lágrimas voltando a rolar sem freio pelas bochechas, “eu preciso colocar uma coisa na sua mão… mas você tem que me jurar que não vai ficar bravo comigo.”

Nem sequer tive tempo de tranquilizá-la. Ela afrouxou os dedos da mão direita e abriu lentamente a palma suada em minha direção.

O mundo ao meu redor pareceu perder o chão.

Ali, reluzindo tenuemente sob a luz do fim de tarde, repousava uma pequena aliança de ouro. A peça apresentava marcas evidentes do tempo: as bordas estavam levemente gastas, o polimento original quase desfeito e, na parte interna, ranhuras familiares revelavam anos de uso diário.

Senti o sangue fugir instantaneamente do meu rosto; minhas pernas perderam a firmeza de tal maneira que quase caí de joelhos sobre a terra batida. Aquele metal dourado não era uma joia comum comprada em uma vitrine qualquer. Era, sem sombra de dúvida, o mesmo aro que eu havia colocado no dedo da mãe dela antes de fechar a tampa do caixão e sepultá-la definitivamente… dez longos anos atrás.

Naquele segundo paralisante, toda a cacofonia da feira desapareceu como se um abafador de som tivesse sido colocado sobre meus ouvidos. As risadas distantes, a gritaria dos jovens na roda-gigante, a música mecânica das atrações — tudo virou um borrão distante e sem sentido. Fiquei completamente atordoado, com a respiração presa na garganta, tentando inutilmente articular alguma palavra, mas a minha mente recusava-se a aceitar o que os meus olhos viam.

Foi então que, enquanto eu ainda encarava o objeto com o peito apertado pela descrença e pelo choque, a menina estendeu o braço trêmulo e apontou na direção do meio da multidão. O dedo indicador mirava uma tenda isolada, coberta por tecidos escuros e adornada com cordões de luzes arroxeadas, com uma placa desgastada indicando a presença de uma vidente.

Ela se inclinou para perto de mim e sussurrou, em um misto de esperança e pavor que quase me partiu ao meio:

“A senhora daquela tenda me entregou isso… e disse que a minha mãe de verdade não morreu, que ela está viva e esperando por nós dois.”

O ar ao nosso redor pareceu congelar em uma atmosfera pesada e sufocante. A atmosfera festiva e inocente daquela tarde havia se desintegrado por completo, dando lugar a uma sensação inquietante de mistério e apreensão. Sem saber como agir ou em que acreditar, meus olhos oscilavam sem parar entre o rosto lívido da minha filha, a aliança impossível repousando em sua mão e a lona escura daquela tenda ao longe. Aquele enigma estava apenas começando a ser desvendado.

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