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O Nobre Rompeu O Elmo Cerimonial Diante Do Altar Sagrado… E A Verdade Sobre A Noiva Abalou A Coroa

6 Min Read

A imensa nave da catedral real encontrava-se mergulhada em uma calmaria tensa e solene. Chamas trêmulas de centenas de círios dourados projetavam sombras alongadas contra os altos vitrais e as colunas góticas de pedra ancestral, enquanto a mais alta linhagem de nobres, barões e emissários de terras distantes assistia à união matrimonial mais aguardada de toda uma geração. O ar cheirava a incenso e cera queimada, mas a atmosfera pesava como um tribunal prestes a ditar uma sentença capital.

Ao pé dos degraus do altar, o Rei Aldric mantinha uma das mãos firmemente apoiada sobre o ombro esguio da jovem. Seu manto nupcial era uma obra-prima de tapeçaria imperial, bordado com fios de ouro puro e milhares de pérolas que cintilavam conforme a luz das velas oscilava. Contudo, em contraposição a tanto luxo, a cabeça da noiva encontrava-se completamente trancada sob uma rígida estrutura cerimonial de madeira escura e metal, cobrindo-lhe o rosto do queixo ao topo dos cabelos.

Murmúrios velados corriam pelas fileiras de bancos estofados de veludo escarlate.

Alguns fidalgos afirmavam em sussurros venenosos que a herdeira do trono nascera com uma deformidade espantosa, mantida oculta a ferro e fogo para preservar o prestígio da corte.

Outros juravam que uma maldição de sangue fora lançada sobre a linhagem monárquica por antigas traições nunca confessadas.

Nenhum cortesão ali presente tinha a menor pista da realidade que se desenrolava sob o elmo.

Lorde Damien mantinha-se de pé ao lado da dama, contemplando-a com uma altivez beirando a repulsa. O coração do jovem comandante não guardava espaço para sentimentalismos nem afeto genuíno. Ele se prostrava naquele altar sagrado unicamente porque aquela aliança lhe abriria as portas para a coroa e para o controle absoluto dos exércitos do reino. Para a sua ambição desmedida, aquele sacramento não passava de uma transação militar e política de altíssimo valor.

Quando o monarca ergueu os braços e repousou os dedos da jovem sobre a palma enluvada de Damien, o pretendente desenhou um meio sorriso cínico nos lábios.

“Entrego o destino da minha herdeira às suas mãos a partir deste instante”, declarou o soberano, com a garganta áspera.

“Será uma honra comandar o império ao lado de vossa filha, Majestade”, replicou Damien, a voz firme e impassível.

Contudo, ao segurar os dedos finos da noiva, sentiu uma tremedeira febril que parecia abalar todo o corpo da garota.

Foi então que, através das pequenas fendas da máscara de madeira, um timbre frágil e sussurrado cortou o silêncio entre os dois.

“Rogo-lhe… não quebre o segredo aqui dentro. Não na frente de todos.”

Uma pontada fria atravessou a espinha de Damien, arrancando-lhe o fôlego por uma fração de segundo.

Aquele sussurro. Aquela entonação única e quase esquecida.

Havia naquele apelo desesperado algo dolorosamente familiar, uma melodia arrancada das cinzas de uma vida humilde que ele jurara ter enterrado para sempre sob a armadura de nobreza. Em um relance involuntário da memória, ele se viu de volta aos seus vinte anos: a penumbra de uma estrebaria iluminada por tochas improvisadas, a palha seca no chão, e o calor do sorriso de uma jovem costureira de mãos manchadas de linha que prometera amá-lo mesmo na mais profunda pobreza. Sonhos de um futuro simples, juras de devoção mútua, desfeitos quando a ambição da corte o chamou de volta.

Com um sacudir de cabeça imperceptível, Damien expeliu a recordação como se fosse veneno.

Aquela garota pertencera a outra vida. Ela já não caminhava sob a luz deste mundo.

Pelo menos, era nessa farsa cruel que ele fora forçado a crer quando os emissários da capital lhe trouxeram a notícia fúnebre anos atrás.

Ao redor do santuário, alguns fidalgos mais velhos notaram a hesitação no semblante do noivo e começaram a soltar risinhos zombeteiros de canto de boca. Ferido em seu orgulho implacável, Damien ergueu o queixo pontiagudo e adotou um ar de superioridade debochada.

“A futura soberana deste reino julga que sou covarde demais para contemplar a face daquilo que adquiri com sangue e vitórias?”

Em resposta imediata ao ultraje, a mão trêmula da dama apertou a manga do gibão de veludo dele com uma força desesperada.

“Eu lhe suplico… pare.”

Antes que ele pudesse zombar novamente, a figura imponente do Rei Aldric deu um passo à frente, quebrando a rigidez do protocolo real.

“Mantenha o elmo cerrado até a bênção final, Damien”, ordenou o rei, com a voz falha.

O jovem guerreiro franziu as sobrancelhas, atônito com a reação do governante. Pela primeira vez desde que pisara os corredores do castelo, viu as pálpebras de Aldric tremerem e uma ponta inconfundível de terror tomar conta dos olhos do soberano.

A hesitação do monarca só serviu para inflamar o veneno da curiosidade do rapaz. Se o homem que comandava reinos inteiros temia a revelação daquele semblante diante da corte reunida, significava que por baixo das tábuas repousava um poder capaz de desmoronar tudo ao redor.

Ignorando o mandato soberano e desdenhando das súplicas da moça, Damien esticou os dedos de ferro e firmou o polegar contra a presilha metálica do fecho.

A princesa tentou recuar dois passos rápidos na soleira de mármore.

Foi um esforço inútil.

CLAC.

A trava emperrada cedeu sob a força bruta.

A peça frontal de madeira escura desencaixou-se e foi empurrada para trás, soltando-se da coroa nupcial.

O mundo ao redor dos dois pareceu desmoronar em um abismo sem som.

A expressão triunfante desmanchou-se instantaneamente do rosto de Lorde Damien. O vigor de sua postura militar ruiu, e cada gota de sangue abandonou suas faces, deixando-o lívido como um espectro.

Fitando-o fixamente, em meio ao luxo das sedas e joias reais, estava uma jovem pálida. Bem rente à sua têmpora esquerda, repousava uma pequena cicatriz em formato de meia-lua.

Uma marca que ele próprio curara com unguentos anos atrás. Uma cicatriz que ele beijara em segredo incontáveis vezes sob a luz das estrelas antes das campanhas sangrentas.

As pernas do nobre fraquejaram, os joelhos quase batendo contra os degraus de pedra do altar.

“Pelo amor dos céus… não pode ser…”

Pelas bancadas da nave, o clero e a nobreza entreolhavam-se sem conseguir compreender o motivo de tanto choque diante de uma donzela de feições delicadas. Mas o olhar vidrado de Damien não enxergava mais nenhuma das centenas de pessoas que lotavam a nave sagrada.

Aquela mulher em trajes de ouro não era uma princesa desconhecida trazida de terras longínquas.

Era Elisa.

A costureira desprovida de riquezas a quem ele entregara sua mocidade inteira.

A mulher que, na última vez em que se viram, levava dentro do ventre a semente do sangue dele.

A mesma mulher que os generais do reino juraram ter visto perecer afogada nas correntes revoltas de um rio caudaloso após uma tempestade terrível que varrera a aldeia campesina.

Lágrimas grossas e involuntárias embaçaram a visão do guerreiro que nunca antes chorara perante a morte.

Por longos e tortuosos anos ele carregara o remorso de acreditar naquele relato forjado. Por anos amargara o peso de crer que a mulher de sua vida e o fruto inocente de seu amor haviam sido engolidos pelo barro e pela correnteza.

No entanto, ela estava ali, de pé sob as bênçãos episcopais.

Viva. Respirando. Encarando-o com uma dor ancestral refletida nas pupilas escuras.

Quebrando o silêncio atordoante que sufocava o templo, a jovem moveu os lábios e proferiu as palavras que fizeram o coração da nobreza inteira parar em uníssono:

“O fruto do nosso amor não morreu naquele rio, Damien. O nosso filho sobreviveu.”

Uma onda de exclamações e sussurros desesperados percorreu a congregação como um raio.

Damien sentiu o chão girar sob suas botas, o peito oprimido como se uma adaga lhe perfurasse a couraça de seda.

Mais acima no estrado sagrado, o Rei Aldric baixou a cabeça coroada e cerrou as pálpebras em rendição, com a postura derrotada de um patriarca que sabia que a conta de seus pecados antigos acabara de chegar para ser cobrada.

Naquele instante avassalador, a névoa da ilusão dissipou-se por completo da mente de Lorde Damien.

A convocação imperial, as promessas de títulos de nobreza e a dádiva da herança do reino nunca haviam sido um tributo às suas vitórias no campo de batalha. Aquela cerimônia pomposa fora cuidadosamente arquitetada para ser a sua corte marcial diante dos homens e dos deuses.

E a revelação de que a criança que ele chorara por metade da vida continuava viva sob a guarda da coroa era apenas a ponta do iceberg de um mistério sangrento, cujo peso haveria de despedaçar as bases da dinastia para todo o sempre.

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