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O Prato da Esperança: O Tempero da Verdade

16 Min Read

A poeira avermelhada do estradão cobria minhas pernas e as tiras surradas da minha sandália quando finalmente cruzei a porteira daquela propriedade. O estômago doía de vazio. Quando abri a boca para pedir apenas a chance de preparar o jantar em troca de um prato de comida, os risos foram imediatos e cruéis. Horas mais tarde, aqueles mesmos peões se empurravam em fila para repetir a refeição — enquanto o capataz, cego de ódio, apontou o dedo no meu rosto e bradou a todos: “Aproveitem, porque amanhã essa mulher não pisa mais aqui.”

Parte 1

— Se veio mendigar comida, fale logo de uma vez. Não precisa inventar que sabe pilotar fogão só para tapear a gente e encher a barriga sem pagar.

As palavras cortaram o pátio central da Fazenda Santa Esperança com a força de um estalo de relho.

Helena Duarte permaneceu imóvel diante de cerca de vinte vaqueiros e peões. Trazia a barra do vestido tingida pela terra vermelha e carregava nos ombros uma mochila puída. Foram quase doze quilômetros de caminhada sob o sol a pino desde a parada do coletivo, vencendo as ladeiras de terra batida no interior de Minas Gerais.

Suas últimas economias haviam se esgotado três dias atrás.

A última vez que vira uma refeição descente fora na manhã do dia anterior.

Ainda assim, sustentou o olhar sem vacilar.

— Não vim pedir esmola a ninguém. Pedi apenas acesso ao fogão. Preparo o jantar de todo mundo e, como pagamento, fico com um prato.

A afronta partira de Damião Ribeiro, o capataz que mandava no terreiro havia oito anos. Por ser primo legítimo do proprietário, achava-se no direito de impor sua vontade absoluta sempre que Otávio Farias estava ausente.

Damião percorreu os olhos pelas roupas empoeiradas e pelo calçado gasto de Helena, soltando uma gargalhada zombeteira.

— E pretende alimentar esse batalhão com quê? Com oração?

Um coro de risadas ecoou entre alguns peões.

Helena calou-se. Aos trinta e quatro anos, tinha aprendido a duras penas que bater boca com quem busca plateia só serve para inflar o deboche.

A zombaria cessou com a aproximação de Otávio Farias.

O fazendeiro vinha saindo do galpão de máquinas, com uma maleta pesada de ferramentas na mão, e logo estranhou aquele alvoroço repentino no pátio.

A Fazenda Santa Esperança mantinha plantações e criação de gado nas imediações da Serra da Canastra. Nas últimas semanas, Otávio acumulava dores de cabeça: o encarecimento contínuo dos insumos, cercados derrubados por temporais, o descontentamento geral dos peões e, acima de tudo, o caos na cozinha da colônia.

A antiga cozinheira tivera de se afastar às pressas por motivos de saúde na família. Desde a partida dela, os homens tentavam cozinhar em esquema de rodízio.

A rotina tornara-se um desastre diário.

Panela queimada.

Grãos de feijão duros como pedra.

Gordura rançosa.

Café ralo e intragável.

— Você entende mesmo de cozinha? — indagou Otávio, fitando os olhos serenos da forasteira.

— Cresci diante das chamas de um fogão a lenha.

Helena limitou-se a relatar o essencial. Sua família gerenciava uma parada com restaurante simples à beira de uma rodovia em Januária, no norte mineiro. Por ali paravam dezenas de caminhoneiros, viajantes e trabalhadores do campo todos os santos dias. Ela havia aprendido muito cedo a cozinhar caldeirões para quarenta ou cinquenta pessoas sem pestanejar.

Contudo, anos difíceis de estiagem, contas acumuladas e um incêndio acidental na estrutura levaram o negócio à ruína. O pai adoeceu e faleceu pouco tempo depois. Desde então, Helena pegava serviços temporários por onde passava, juntando cada centavo na esperança de recomeçar a vida.

— Não exijo contratação antecipada — garantiu ela com firmeza. — Peço unicamente uma chance para demonstrar o que sei fazer.

Damião cruzou os braços largos, balançando a cabeça em sinal de desaprovação.

— Otávio, isso é tolice. Não sabemos de onde veio essa andarilha.

O dono da terra olhou para o capataz. Depois, encarou a expressão cansada de seus funcionários. Por fim, fitou a determinação nos olhos de Helena.

— Uma refeição.

O capataz deu um passo à frente, contrariado.

— Otávio, escute…

— Apenas uma janta — determinou o proprietário. — Se o jantar prestar, conversamos sobre trabalho pela manhã. Se a comida for ruim, ela janta, passa a noite no cômodo dos fundos perto da copa e amanhã eu mesmo trato de levá-la até o asfalto.

Helena fez um aceno sutil com a cabeça.

Ao adentrar a despensa, deparou-se com um cenário desolador. Restavam sacas de arroz, feijão, farinha grossa de mandioca, fubá moído, ovos, alguns gomos de linguiça caipira, pedaços de toucinho de porco, maços de couve levemente murchos, alho, cebola, bananas muito maduras e um pedaço de queijo curado esquecido no fundo de uma prateleira.

Helena respirou fundo e analisou cada item.

Damião encostou o corpo largo no batente da porta da cozinha.

— Desista logo antes de passar vergonha.

Ela ergueu a lâmina da faca e começou a picar o toucinho com precisão cirúrgica.

— O senhor também tem tempo de dar meia-volta e me deixar trabalhar.

Num canto, Caio, o mais jovem entre os peões da lida, mordeu o lábio para abafar uma risada.

Damião fechou a cara, tomado pela ira.

Helena dedicou as horas seguintes ao fogo.

Fez um feijão tropeiro e um caldo encorpado aromatizado com alho dourado e nacos de linguiça, arroz branco solto e perfumado, couve picada bem fininha salteada no ponto certo, torresmo pururucado e estaladiço, angu macio e uma farofa bem torrada com cebola crocante. Usando as bananas passadas com um toque de rapadura e queijo ralado, preparou uma sobremesa simples e reconfortante de tacho.

Ao cair da noite, o aroma irresistível tomou conta de todo o terreiro da fazenda.

Aqueles mesmos trabalhadores que antes faziam piada passaram a rondar o alpendre da cozinha com os pratos nas mãos.

Damião arrastou-se até a fila por último, contrariado.

Caio levou a primeira garfada à boca. Ficou estático por um segundo. Seus olhos brilharam em direção à cozinheira.

— Dona Helena…

Ela limpou as mãos no avental improvisado.

— Não gostou, rapaz?

— Juro pela minha mãe que nunca experimentei uma comida tão maravilhosa em toda a minha vida.

Nenhum peão ousou discordar.

O silêncio do terreiro foi substituído por pratos raspados e pedidos imediatos de repetição.

Um prato.

Dois pratos cheios.

Vários deles voltavam para buscar a terceira conchada.

Da varanda da sede, Otávio observava o contentamento dos peões com uma xícara de café na mão.

Foi nesse instante que Damião percebeu que as panelas estavam praticamente no fundo. Ao ver a fila se formar mais uma vez ao redor da bancada de Helena, o capataz não conteve o rancor. Fitou a mulher com os dentes cerrados e bradou para quem quisesse ouvir:

— Não vão se acostumando com regalia. Amanhã essa criatura já estará bem longe daqui!

Helena estancou com a concha suspensa.

Otávio pousou a xícara na mesa com força, fitando o primo com olhos duros. Ninguém ali compreendia a razão daquele ódio desmedido.

Muito menos desconfiavam do segredo tenebroso que Helena desenterraria antes do nascer do sol.

Parte 2

Assim que o refeitório esvaziou e os homens se recolheram, Otávio apareceu na copa, encontrando Helena esfregando as últimas caldeiras.

— Deixe as bravatas do Damião de lado.

— Ele não estava apenas falando da boca para fora, senhor Otávio.

O fazendeiro soltou um longo suspiro, apoiando-se no balcão.

— Aquele meu primo pensa que manda mais nestas terras do que eu próprio.

Foi então que Otávio desabafou sobre a crise invisível da fazenda. Há tempos Damião vinha alegando que a peonada estava rebelde por causa de salários atrasados e más condições, usando essa justificativa para exigir plenos poderes sobre as finanças e as ordens de compra da despensa.

Contudo, naquela noite, os peões conversavam e riam juntos depois de meses de cara amarrada.

Uma simples panela de comida bem feita havia restaurado o ânimo do terreiro. E Damião compreendera o perigo que isso representava.

Com o raiar do dia, Otávio oficializou o emprego de Helena: carteira assinada, remuneração justa, casa e comida. Ela aceitou sem hesitar.

Damião, furioso, declarou uma guerra velada.

A partir daquela semana, estranhos incidentes começaram a ocorrer na cozinha.

O botijão de gás amanhecia vazio.

Mantimentos básicos sumiam das prateleiras trancadas.

As encomendas de verduras e carnes chegavam com peso muito inferior ao solicitado.

Helena logo pressentiu a armadilha.

Numa madrugada fria, o jovem Caio bateu baixinho à porta dos fundos com uma revelação urgente:

— Dona Helena… flagrei o capataz colocando fardos lacrados de mantimentos na caçamba da caminhonete dele ontem à noite.

Em vez de armar escândalo, Helena optou pelo silêncio vigilante.

Pegou um caderno velho e passou a controlar rigorosamente as entradas e saídas.

Anotava cada saco de mantimento descarregado.

Cada lata de óleo, quilo de café e pacote de carne.

Confrontava tudo com as notas emitidas pelos fornecedores da cidade.

Ao término de duas semanas, o rombo saltou diante de seus olhos: a fazenda pagava sistematicamente por quase o dobro de comida e insumos que de fato chegavam ao galpão.

No momento em que Helena apresentou o relatório com as contas escancaradas a Otávio, o fazendeiro empalideceu de choque.

— Isso não começou agora… vem ocorrendo há meses!

Antes que pudessem aprofundar a conferência, a porta do escritório foi aberta bruscamente por Damião. Ao ver os cadernos e comprovantes sobre a mesa, o capataz mudou de feição, assumindo uma postura agressiva:

— Você cruzou a linha, forasteira. Não deveria meter o nariz onde não é chamada.

Otávio colocou-se de pé, encarando o primo:

— Ela é a responsável pela cozinha e pela despensa. Tem total direito de saber por que a comida comprada não alimenta o pessoal.

Damião soltou uma gargalhada venenosa.

— Pois se quer tanto bancar o investigador, procure saber primeiro por que o dinheiro dessas compras cai direto na conta da sua queridinha irmã Patrícia!

Otávio empederniu.

O ar pareceu faltar na sala.

Patrícia, a irmã mais nova de Otávio, geria a contabilidade e as faturas da propriedade a partir de um pequeno escritório na cidade vizinha.

Com um sorriso vitorioso, Damião sacou o telefone do bolso:

— Quer ver com os próprios olhos quem é que sangra esta fazenda?

Ele exibiu um extrato com seguidas transações bancárias.

O nome de Patrícia constava como destinatária de vultosas quantias semanais.

Otávio sentou-se, atordoado e sem palavras.

Porém, Helena inclinou o corpo e examinou a tela com calma. Algo não batia. Observadora como era, notou um detalhe que passou batido pela confusão de Otávio.

As datas daquelas transferências batiam com precisão matemática com os dias em que Damião subia a serra com a caminhonete carregada. E havia uma discrepância gritante entre os registros fiscais e o padrão daquelas operações.

Não se tratava de mero desvio de feijão e farinha. Era um golpe premeditado e de proporções devastadoras. E o rastro final daquela trapaça repousava dentro do veículo de Damião.

Na manhã que despontava, as máscaras finalmente cairiam no chão da Santa Esperança.

Parte 3

Otávio não pregou os olhos durante a madrugada inteira.

Patrícia era seu único sangue. Após a partida dos pais, ambos dividiram a herança da fazenda. Ela preferiu fixar moradia em Passos, mantendo um comércio simples de armarinho e deixando a lida do campo com o irmão.

Nessa brecha, Damião ganhou terreno e poder dentro da fazenda. Durante quase uma década, a família confiara nele sem exigir recibos.

Antes do amanhecer, Helena espalhou os papéis sobre a bancada do patrão:

— Veja a sequência desses números, seu Otávio.

As notas fiscais atestavam a compra de fardos de comida muito além da capacidade de consumo da colônia. Além disso, constavam cobranças abusivas de combustível, ferramentas de alto custo, remédios veterinários caros e sacos de cimento para obras que nunca haviam sido erguidas.

— O senhor viu esse maquinário ou essas reformas por aqui?

Otávio passou a mão pelos cabelos grisalhos:

— Nunca. Nem um único parafuso.

— Pois alguém faturou por tudo isso.

À primeira hora do dia, Otávio exigiu a presença imediata de Patrícia.

Ela desembarcou na sede duas horas mais tarde, aflita com o chamado repentino. Damião percebeu a emboscada se formando e tentou dar partida no veículo para deixar a fazenda, mas os peões, liderados por Caio, fecharam a saída principal sob ordens do dono.

Helena preferiu não assistir ao embate inicial. Voltou ao fogão para preparar o café e o pão fresco dos trabalhadores.

Seu refúgio sempre fora o fogo: com lenha e tempero, ela mantinha a sanidade enquanto o mundo desabava do lado de fora.

Na varanda da casa-grande, Patrícia desabou em pranto assim que o irmão lhe mostrou as telas de transferência:

— Otávio, por Deus, eu nunca roubei um centavo de você!

Damião debochou, encostado na mureta:

— Os comprovantes mostram o contrário, prima. Explique isso ao dono da fazenda!

Trêmula, Patrícia abriu o próprio aplicativo bancário e colocou a verdade na mesa.

O dinheiro da propriedade de fato passava brevemente por sua conta, mas era imediatamente repassado, centavo por centavo, para uma empresa de insumos: a Distribuidora Rural Ribeiro.

Cujo proprietário registrado era ninguém menos que Maurício Ribeiro.

O próprio pai de Damião.

Um silêncio sepulcral engoliu a varanda.

O sangue sumiu do rosto do capataz.

Soluçando, Patrícia contou que, meses atrás, Damião a procurou na cidade dizendo que o irmão estava atolado em dívidas e exausto com a burocracia do campo. Ele alegou que, ao canalizar os pagamentos pela distribuidora de seu pai, conseguiria descontos imbatíveis de atacado em tudo o que a fazenda precisasse.

Patrícia confiou na palavra do primo. Acreditava piamente estar tirando um peso das costas do irmão.

— Ele me jurou que você sabia de tudo e tinha autorizado o esquema!

Todos os olhares se cravaram em Damião.

Sem saída, ele tentou o último blefe:

— Eu fiz manobras para cortar gastos e manter essa fazenda de pé!

Nesse instante, Helena caminhou até a varanda segurando uma pasta surrada:

— Se pretendia poupar recursos, como explica estes relatórios?

Ali estavam cópias fotográficas detalhadas que Helena guardara: pacotes de café registrados pelo triplo do preço da praça; toneladas de grãos que nunca entraram na despensa; remédios de gado inexistentes; ferramentas fictícias faturadas semanalmente. Durante mais de um ano, centenas de milhares de reais haviam sido drenados da propriedade direto para as contas da família de Damião.

— Você me apunhalou pelas costas — disse Otávio, a voz rouca de desapontamento.

Damião desmoronou em revolta:

— Cansei de ver você bancando o coronel enquanto eu gastava a minha vida no sol! O que eu peguei foi apenas a parte que o meu pai sempre mereceu e que sua família nunca reconheceu!

A ferida exposta vinha de longe. O pai de Damião fora meeiro e empregado do antigo patriarca dos Farias e sempre se ressentira por não ter sido sócio daquelas terras férteis. Damião alimentou essa amargura até decidir fazer a própria justiça com fraudes e mentiras.

Otávio respondeu em tom baixo, mas definitivo:

— Tomar o que não é seu na calada da noite não é justiça. É roubo. Chame do nome que quiser.

Encurralado, o capataz atirou a culpa para a cozinheira:

— Se essa andarilha infeliz não tivesse cruzado aquela porteira, as coisas continuariam em paz!

Helena manteve a cabeça erguida:

— Cheguei aqui apenas pedindo a dignidade de trabalhar em troca de um prato de comida. As notas falsas, os recibos adulterados e a traição contra sua própria família foram escolhas suas.

Damião foi expulso da fazenda imediatamente. Otávio acionou a assessoria jurídica e uma auditoria contábil completa. A análise profunda revelou que o esquema criminoso era ainda mais devastador do que Helena havia descoberto no início.

Patrícia fora inocentada de qualquer cumplicidade deliberada, mas carregou um remorso sufocante pela ingenuidade que quase destruiu o patrimônio do irmão. Durante semanas, ela se isolou em sua casa, envergonhada.

Foi Helena quem tomou a iniciativa de ligar para ela:

— O seu irmão precisa do apoio da família agora, Patrícia. A culpa não vai consertar o que quebrou, mas a sua presença vai.

Comovida, a irmã voltou. O diálogo entre os dois irmãos foi longo e doloroso, mas selou a reconciliação e a transparência na gestão. Otávio estruturou um sistema rigoroso de conferência com duas assinaturas obrigatórias para qualquer gasto.

Helena assumiu o comando pleno da alimentação e da copa. Recebeu um reajuste generoso em seus vencimentos.

Quando tentou recusar o aumento, Otávio foi enfático:

— Você não apenas cozinhou para a peonada, Helena. Você resgatou a alma deste lugar antes que tudo fosse por água abaixo.

Ela sorriu humildemente:

— Eu só conferi sacas de mantimentos e restos de comida.

— Muitas vezes, é pelas coisas mais simples que a verdade se revela.

As estações mudaram.

A antiga cozinha triste transformou-se no coração pulsante da Santa Esperança. Nos fundos do barracão, Helena montou uma horta viçosa: canteiros de couve, tempero-verde, abóboras rasteiras, mandioca e ervas medicinais.

Caio tornou-se seu aprendiz dedicado nos momentos de folga. Aprendeu os segredos do tempero certo, o respeito ao tempo das panelas, a arte de não desperdiçar nenhum ingrediente e a disciplina do controle da despensa.

O respeito pela mulher espalhou-se por toda a colônia. Até mesmo os homens mais rudes que riram de sua chegada mudaram de atitude. Valdir, um dos vaqueiros veteranos, aproximou-se certo dia estendendo um queijo curado embrulhado em pano limpo:

— É um presente da minha mulher, Dona Helena.

— Por qual razão?

Ele coçou a nuca, encabulado:

— Porque confessei a ela as zombarias que fiz quando a senhora pisou aqui pela primeira vez.

Helena deu um leve sorriso:

— Contou a história com todos os detalhes?

— Infelizmente contei. Ela quase me jogou para fora de casa de tanta vergonha.

Helena soltou uma gargalhada gostosa. Foi a primeira vez que todos a viram rir abertamente, com a leveza de quem reencontrava a paz.

Pouco tempo depois, um senhor idoso aproximou-se da porteira da fazenda. Chamava-se Joel. Com as roupas gastas pelo tempo e uma sacola plástica guardando seus poucos pertences, pediu permissão para falar:

— Conserto arame, limpo pasto ou trato de bicho… qualquer coisa. Só peço alguma coisa quente para forrar o estômago antes de começar.

Um capataz recém-contratado já se preparava para dispensá-lo dizendo que não havia vagas.

Helena, que passava por perto, ouviu a conversa. Caminhou até o portão e fitou o andarilho nos olhos. Reconheceu na hora o peso daquele semblante: a vergonha de estender a mão, a timidez de quem mede as palavras, o medo de ser escorraçado.

— Venha cá e puxe uma cadeira — disse ela com voz doce.

Serviu-lhe um prato farto de arroz fresco, feijão encorpado, carne ensopada com mandioca e couve refogada na hora.

— Primeiro o senhor come. Depois a gente conversa sobre a vida.

Joel baixou a cabeça, com os olhos marejados:

— Quanto vai me custar o prato? Posso carregar pedra para pagar.

Helena tocou suavemente o ombro do velho senhor. Era como se estivesse enxergando a si mesma meses atrás, chegando empoeirada pela estrada.

— Não custa nada. Eu sei que o senhor quer trabalhar, mas ser humano nenhum neste mundo deveria ter que provar o próprio valor para merecer matar a fome.

Otávio ouviu tudo da varanda da casa, em silêncio respeitoso.

Joel ficou na propriedade por alguns dias, consertando cercas antigas, e seguiu caminho com a mochila abastecida de mantimentos para a jornada.

Mais tarde, quando a noite caiu e o silêncio tomou o refeitório, Otávio sentou-se à mesa para tomar café com Helena. A aproximação entre os dois crescera de maneira natural, feita de companheirismo e olhares compreensivos. Otávio perdera a esposa seis anos antes; Helena carregava as cicatrizes de tantas perdas e desilusões.

— Quando você cruzou aquele terreiro — confessou o fazendeiro —, achei que apenas me ajudaria a conter a revolta dos meus peões.

Ela ergueu a sobrancelha com humor:

— Uma visão extremamente romântica dos negócios.

Ele riu junto, mas logo retomou a serenidade:

— Hoje vejo que esta fazenda definhava de uma forma que dinheiro nenhum conseguia mostrar. Ninguém confiava em ninguém. Damião espalhava desconfiança, meus funcionários trabalhavam amargurados e eu me afundei nas contas sem notar que ninguém se sentia acolhido.

Helena olhou pela janela para as luzes das casas da colônia:

— Um prato quente não cura todos os males do mundo, Otávio.

— Não cura tudo — concordou ele, bebericando o café. — Mas reúne as pessoas em volta da mesa para que encontrem coragem de conversar.

Aquelas palavras ficaram gravadas no peito de Helena.

No meio do inverno, um temporal rigoroso atingiu a serra. As chuvas desabaram durante dias ininterruptos, arrancando pontes e bloqueando as estradas de terra com lamaçal. A Fazenda Santa Esperança ficou completamente isolada.

Contudo, a despensa estava farta e protegida. Desde o início dos ventos frios, Helena reforçara os estoques de grãos, carnes secas, farinhas, raízes, lenha seca e pó de café. Durante todo o período de isolamento, nenhuma família ou peão ficou sem uma tigela fumegante na mesa.

Na noite em que a chuva finalmente deu trégua, os trabalhadores se aglomeraram no refeitório quentinho.

Helena depositou uma panela enorme de caldo no centro do fogão a lenha.

O fantasma de Damião já pertencia a um passado superado.

Patrícia agora subia a serra semanalmente para almoçar com o irmão.

Caio dominava as panelas com destreza quase idêntica à de sua mestra.

E Otávio encontrava pretextos diários para rondar a cozinha pouco antes do jantar, inventando conferências de rotina que já não enganavam ninguém.

Naquela noite festiva, Valdir raspou o primeiro prato e já se colocou de pé com a colher na mão:

— Já vai para a segunda rodada, compadre? — gracejou Caio.

— Com toda certeza do mundo!

Outros peões levantaram-se no mesmo instante, formando depressa uma fila alegre ao redor da bancada.

Helena contemplou aquela cena com os olhos brilhantes. Lembrou-se do dia em que chegara com a garganta seca, as roupas empoeiradas, a dor do estômago vazio e as risadas frias dos que duvidavam dela. Lembrou-se da ameaça ríspida de que não passaria da primeira noite.

Chegara implorando pela chance de cozinhar por uma refeição. E ali estavam todos, esperando felizes pela segunda rodada.

Otávio estendeu seu prato, sorrindo:

— Pode caprichar na concha.

— O senhor pede a mesma coisa todos os dias.

— Porque o seu tempero nunca perde a mão.

Ela serviu a refeição generosa. Ele não se afastou de imediato.

— Você ainda sonha em abrir outro restaurante na beira da estrada?

Helena parou por um instante, refletindo com o coração sereno.

Durante anos, viveu obcecada pela ideia de resgatar o passado que o fogo levara embora: o restaurante da família, a rotina antiga, o fogão do pai. Mas recomeçar a vida não significa caminhar para trás. Às vezes, recomeçar significa criar raízes num lugar que finalmente nos reconhece e nos abraça.

— Acho que já encontrei o meu lugar no mundo. Esta já é a minha cozinha.

Otávio abriu um sorriso sincero.

Atrás dele, a peonada começou a chiar com bom humor porque o patrão estava travando o andamento da fila. Helena deu risada e mandou o fazendeiro se sentar para dar vez aos outros.

Na Fazenda Santa Esperança, aquela fila para repetir o jantar virou um ritual sagrado de fraternidade.

E todas as vezes que um viajante desgarrado batia àquela porteira com fome, cansaço ou sem rumo, ninguém lhe perguntava de onde vinha ou o que trazia nos bolsos.

Helena apenas sorria, puxava uma cadeira e dizia:

— Sente-se aqui. Você já comeu hoje?

Pois quem já sentiu a dor cortante da fome na pele sabe muito bem que fartura alguma sobre a mesa tem valor se não servir para acolher quem chega de mãos vazias.

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